Não Falarei, a nova curta-metragem do diretor galego Eloy Domínguez Serén, mergulha na vida de um jovem casal e seu bebê isolados em um porão em Miragaia, em 1951. O filme, apoiado pela Bolsa Pascaud da Filmaporto, busca explorar a "poética da claustrofobia" das casas clandestinas do Partido Comunista Português, onde militantes sacrificaram sua própria liberdade em nome da luta antifascista.
Para Domínguez Serén, a escolha do Porto teve um propósito histórico. "A cidade serviu de centro de coordenação para todo o norte do país e de base para a estrutura sindical da região", explica, referindo-se à intensa atividade clandestina que ali se desenrolou e à participação de figuras históricas como Américo Leal e Sofia Ferreira. As filmagens ocorreram em locais como a Rua de Miragaia, o Túnel da Alfândega e o Cais Novo, escolhidos pelo seu significado simbólico, evocando tanto a necessidade de ocultação como o perigo constante da repressão policial. “O túnel, por exemplo, remete à ação de “mergulhar”, termo usado pelo PCP para se referir à descida ao subsolo, mas também à emergência, ao sair das sombras para enfrentar a “longa noite de pedra” da ditadura. Miragaia, por sua vez, também está associada ao “mergulho”, por ser um bairro historicamente marcado por inundações. Além disso, suas ruas estreitas e arcadas contêm algo de esconderijo, ocultação e imersão que dialoga com o tema do nosso filme”, acrescenta o diretor.
A narrativa centra-se nos pequenos gestos da vida clandestina: a estrita observância das regras da conspiração, o isolamento social e a falsificação de documentos. Para Domínguez Serén, esses atos meticulosos de extremo sacrifício pessoal são "admiráveis e comoventes" e revelam a disciplina e o compromisso coletivo exigidos daqueles que arriscaram as suas vidas em nome da liberdade.
Quase toda a ação se desenrola em um único espaço, reforçando a atmosfera claustrofóbica. “Em todas as entrevistas, os clandestinos mencionaram que nunca saíam de casa a menos que fosse absolutamente imprescindível. Partindo dessa permanência em um único espaço fechado, nossa abordagem busca explorar a relação com o espaço e desenvolver uma “poética da claustrofobia”, evocando a sensação de ameaça constante e a transformação emocional dos personagens por meio de sutis mudanças de luz ou cenário”, explica Domínguez Serén.
Com este filme, o diretor espera que o público compreenda o sacrifício feito por esses ativistas e perceba a importância de continuar defendendo os direitos e liberdades conquistados. "Essas pessoas literalmente arriscaram suas vidas por aquilo que hoje consideramos garantido", conclui ele.
Protagonizado por Rita Cabaço, Mário Coelho e Diana Sá, Não Falarei é produzido por André Guiomar, Luís Costa, Miguel da Santa e Tiago Carvalho (Olhar de Ulisses).
Fonte/Foto: Filma Porto