Francisco Sá Carneiro, Agustina Bessa-Luís, António Pedro e D. António Ferreira Gomes. Quatro "vozes insubmissas do Porto" foram, esta segunda-feira, recordadas na Biblioteca Municipal Almeida Garrett (BMAG), durante a conferência internacional "Porto da Liberdade", dedicada ao 25 de Novembro. Data que, para o presidente da Câmara do Porto, deve ser assinalada como uma das mais "fundamentais do processo de democratização do país".
Rui Moreira falou sobre Francisco Sá Carneiro, que conheceu, de perto, não só por laços familiares, mas, acima de tudo, pelo carisma que exerceu sobre si. "Era, de facto, um homem muito carismático. Monopolizava as atenções com a sua figura esfíngica, o seu olhar aquilino, o seu discurso vibrante, frontal e incisivo", disse.
E sobre o 25 de Novembro, o fundador do PPD-PSD "teria, certamente, dificuldade em compreender toda esta polémica em torno do 25 de Novembro. Como homem de liberdade, não se conformaria com a tentativa de enclausurar o 25 de Novembro no baú da História", adiantou.
Segundo o presidente da Câmara do Porto, "a historiografia diz-nos que o 25 de Novembro representa a consolidação da democracia representativa e liberal no nosso país". Por isso, na sua opinião, "o consenso alargado de que o regime democrático goza, presentemente, devia ser suficiente para o 25 de Novembro já não gerar desgostos ou ressentimentos".
Voltando a Sá Carneiro, o autarca portuense lembrou o ex-primeiro-ministro e aquilo que apelidou de "traição do 25 de Novembro". Ou seja, "[Sá Carneiro] Criticava assim a manutenção do statu quo revolucionário, após o 25 de Novembro. Para ele, faltava ainda fazer regressar os militares aos quartéis, desmarxizar a Constituição de 1976, proteger a iniciativa privada dos excessos coletivistas, combater a influência comunista na sociedade portuguesa e aderir ao projeto europeu", acrescentou.
Daí até à formação da Aliança Democrática (AD), em 1979, e a vitória, com maioria absoluta, nas eleições legislativas de 1980, foi o culminar de uma carreira política que "reconciliou Portugal com o espírito do 25 de Novembro, libertando o país dos fantasmas quer de um autoritarismo conservador e fascizante, quer de um totalitarismo militar revolucionário".
Tudo isto só demonstra, na opinião de Rui Moreira, que Sá Carneiro foi um homem de "tudo ou nada", tanto na política como na sua vida pessoal. "De convicções fortes e determinação férrea, esteve permanentemente em rutura": com a ditadura, de Salazar e Caetano, depois, com o aparelho militar revolucionário e, a seguir, em rutura com a democracia tutelada e socializante do pós-revolução".
"Mesmo dentro do seu partido, Sá Carneiro forçou ruturas políticas e travou lutas figadais, até se afirmar como grande referência da social-democracia portuguesa", sublinhou o presidente da Câmara do Porto, não deixando de recordar também que, até na sua vida sentimental, "entrou em rutura com as convenções sociais da época e o moralismo vigente ao assumir a relação extraconjugal com Snu Abecassis".
Recusando a tentativa de imaginar como seria Sá Carneiro, "caso não morresse tão precocemente", ou como seria hoje o país “se a sua governação política não fosse tão fugaz", Rui Moreira concluiu o seu testemunho, com uma citação da arquiteta e política Helena Roseta, que também privou, de perto, com a "voz insubmissa do Porto": "um reformista corajoso, precursor nalguns temas, capaz de ir até ao fim naquilo em que se empenhava. A forma como viveu e assumiu o amor por Snu Abecassis mostra até que ponto um reformista pode ser revolucionário".
Para além do presidente da Câmara do Porto, mais três "vozes insubmissas do Porto" foram destacadas e homenageadas na conferência sobre o 25 de Novembro: António Pedro por Júlio Gago, D. António Ferreira Gomes por D. Januário Torgal Ferreira e Agustina por Carlos Magno.
A conferência internacional "Porto da Liberdade", organizado pelo Instituto Português de História e Cultura Local (ICL), com o apoio da autarquia, prossegue, esta terça-feira, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett (BMAG). A entrada é livre. "A Liberdade. Sempre.", com Roberto Ampuero, antecede a sessão de encerramento da conferência, a cargo do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco.
Fonte: CM Porto
Foto: CM/Guilherme Costa Oliveira