Há notícias que ultrapassam o desporto. O encerramento do Boavista Futebol Clube é uma delas. Não representa apenas o fim de uma instituição centenária; significa o desaparecimento de um lugar de memórias, de afetos e de identidade para milhares de pessoas.
Na minha família, o Boavista sempre foi mais do que um clube. O meu avô paterno foi pugilista ao serviço do Boavista e um ferrenho adepto axadrezado, paixão que transmitiu a vários membros da família. Cresci a ouvir histórias do Bessa, das vitórias, das derrotas e da honra de vestir ou apoiar aquelas cores.
Também eu guardo recordações que ninguém poderá apagar. Tive o privilégio de ver o Boavista sagrar-se campeão nacional, um feito histórico que mostrou que o futebol português podia romper a lógica dos “grandes” e abrir espaço ao mérito, ao trabalho e à competência. Foi uma vitória que encheu de orgulho toda a cidade do Porto e todos aqueles que acreditavam que o impossível podia acontecer.
O Estádio do Bessa faz igualmente parte da história da minha família por outro motivo muito especial. Foi ali que a minha esposa celebrou a sua Missa da Bênção das Pastas, um momento de ação de graças e de esperança que permanece gravado na nossa memória. Para nós, o Boavista nunca foi apenas um palco de futebol; foi também um lugar onde a vida aconteceu.
Os clubes desportivos são património humano. Guardam histórias de famílias, amizades, sonhos e gerações inteiras. Quando desaparecem, perde-se muito mais do que um emblema ou uma equipa. Perde-se um pedaço da alma de uma comunidade.
O Boavista ficará sempre vivo nas memórias de quem o amou. Porque há instituições que não pertencem apenas às classificações ou aos balanços financeiros. Pertencem à história das pessoas. E essa história, felizmente, ninguém a conseguirá encerrar.
Texto: Sérgio Carvalho
Foto: Boavista FC